Menos é menos, e isso é algo bom

Existe um ditado que diz: menos é mais. Percebi que o certo seria dizer: menos é menos. Pois ter menos não é necessáriamente algo ruim.

Quatro anos atrás estávamos de mudança. Para morar em uma localização privilegiada decidimos alugar uma casa menor. O problema é que se você tem muitas coisas acaba-se tendo menos espaço para acomoda-las. Quatro anos depois estamos na nossa primeira grande reforma e percebi algo: é importante ter menos.

Ao começar a reforma na casa decidimos jogar fora tudo o que não precisamos. Logo os conflitos de interesses começaram a ocorrer, mas conseguimos chegar a um senso comum do que era desnecessário. A grande questão é: “se tivessemos mais espaço, jogaríamos aquilo fora?”

Em um ambiente onde os recursos são abundantes é fácil não se preocupar sobre como gastá-los. Meu recurso aqui era o espaço, mas poderia ser dinheiro, tempo, esforço, equipe. De outra forma, quanto menos recursos disponíveis, mais precisa-se pensar sobre o que realmente deve ser feito com eles.

Limitações são libertadoras.

Parece absurdo dizer isto. Não queremos ficar presos a elas. Mas, se olharmos atentamente para as restrições, perceberemos que elas podem nos ensinar muito. Possuir recursos escassos nos impele a usar o máximo de nossa criatividade.

Imagine um projeto de software. O investidor possui muitos recursos para bancar as despesas. Você poderá contratar quantas pessoas quiser. Além disso, o investidor possui uma grande idéia. Quando digo grande não falo somente da geniosidade, falo do tamanho da mesma.

Em um ambiente como este é muito provável que sejam alocados o máximo de recursos necessários para fazer tudo o que o investidor planejou. O sistema tem seus problemas de percurso, mas acaba sendo entregue. O sistema possui muitas features. Muitas mesmo. Muitas que nunca serão utilizadas também.

Agora mudemos o cenário. Imagine que você está realizando um projeto da sua empresa. Seus recursos estão bem limitados. Não há tanto dinheiro disponível e a equipe tem muita coisa para fazer. E o projeto é gigante.

Neste segundo ambiente, de extrema limitação, é provável que você seja forçado a fazer as coisas mais bem pensadas. Essas limitações vão te forçar a pensar fora da caixa.

Se Pareto estiver correto, 20% de tudo o que seu sistema precisa ter gera 80% do valor que o projeto tem. Será necessário perceber o que é crucial no sistema e trabalhar em cima destes pontos. Será necessário perceber o que traz mais valor. E o resto? Descarta-se a princípio.

No caso da minha reforma, comecei a perceber que guardava coisas desnecessárias e que o problema não era a quantidade de espaço que não existia, e sim a quantidade de coisas que sobravam.

Se você só tem uma bala no revólver, você não irá desperdiça-la, correto? Portanto, toda vez que perceber que existem limitações ao seu redor, abrace-as e se esforce para aprender o máximo com elas.

Leitura recomendada:

  1. Jason Fried e David Heinemeier Hanson, Rework, pág. 67.
  2. Embrace Constraints, Getting Real
2012-03-07